terça-feira, 9 de agosto de 2011

Frei João Domingos foi homenageado no Seminário Maior de Luanda
Fotografia: JA


Fiéis de várias congregações, membros do Executivo e de partidos políticos, figuras da sociedade civil e amigos de frei João Domingos assistiram no passado domingo, no Seminário Maior de Luanda, a uma missa em sua homenagem.
A homenagem ao frade dominicano começou às 8h25 com uma procissão, mas desde as seis da manhã que se encontravam no local centenas de pessoas.
As irmãs Dominicanas do Rosário e Salesianas foram as primeiras a chegar, com o grupo do protocolo. Antes, das seis às sete da manhã, houve a oração da manhã na qual participaram seminaristas.
Terminada a missa e depois dos seminaristas saírem, os fiéis "invadiram" o local. Todos queriam assistir ao culto ecuménico, que foi presidido pelo arcebispo de Luanda, D. Damião Franklin.
A manhã estava cinzenta e fria. Um pouco depois das sete horas da manhã já não havia no interior do Seminário espaço para mais ninguém. Os membros do protocolo, foram mobilizando alguns fiéis para assistirem à missa no exterior, através de um ecrã gigante, para dar primazia aos convidados. Uns tantos aceitaram. Outros nem tanto, o que obrigou a organização a arranjar mais cadeiras. No interior, de acordo com dados do protocolo, estavam mais de 700 pessoas. No exterior, através da tela, assistiram ao culto outras centenas de fiéis.
"Ele sempre defendeu a justiça e a verdade. Sempre teve solidariedade com as crianças que ficaram órfãs na guerra. Quero assistir à missa aqui dentro. É aqui onde sempre assisti à missa. Não quero ver a missa pela tela. Vai desculpar-me", disse uma idosa, que se move com uma bengala. A jovem que estava a controlar a porta, trajada com uma camisola amarela, com uma foto de frei Domingos estampada na frente, mandou entrar a crente.


Celebração da missa

A  missa começou com a procissão dos dominicanos  e seminaristas,um pouco depois das oito da manhã. Uma banda musical da Igreja do Carmo, sob a responsabilidade de frei Zé Paulo, garantiu os cânticos que eram comoventes.
D. Damião Franklin começou a missa fazendo uma abordagem sobre a vida e feitos de frei João Domingos. De seguida foi feita a primeira leitura do Livro dos Reis, no XIX Domingo do Tempo Comum. O culto terminou às dez horas, com um agradecimento aos fiéis da paróquia do Carmo, aos governantes, deputados e autoridades judiciais por parte do prelado.

A palavra do irmão

Frei Pedro Fernandes, do Porto, Portugal, assistiu à homília em homenagem ao seu irmão. Disse à reportagem do Jornal de Angola que "esta homenagem é um sinal de respeito pela acção, trabalho e serviços prestados por frei João Domingos durante os 28 anos de missionário em Angola, primeiro no Waku Kungo e depois aqui em Luanda".
Frei Pedro Fernandes disse que frei João Domingos sempre lutou e pediu a Deus pelos mais desfavorecidos e teve sempre em atenção os direitos humanos, o reconhecimento da pessoa humana e da verdade.
"Estou satisfeito por saber que o meu irmão mais velho tem aqui muitos amigos, desde fiéis a governantes e deputados, que sempre escutaram a sua palavra e hoje estão aqui para o homenagear", disse frei Pedro Fernandes.  
O ministro do Interior, Sebastião Martins, que chegou ao local às oito horas, referiu ao Jornal de Angola que "esta é uma homenagem merecida a frei João Domingos".
Como cristão, disse, "estou aqui para lembrar um homem que sempre mobilizou a juventude para resgatar os valores cívicos e sensibilizou a sociedade para reconstruir Angola para o bem de todos nós".
A irmã Maria da Conceição Adelina, da Congregação das Irmãs do S. José de Cluny, referiu que foi uma homenagem merecida porque "o frei João Domingos foi um mestre para os angolanos, grande conselheiro, pedagogo, mestre da vida que orientou para os bons costumes". 
Albina Assis, presente na homenagem, assistiu ao culto: "venho porque adorei o homem na sua grande plenitude, na sua mensagem de paz e amor que transmitia aos angolanos nos períodos difíceis", disse a conselheira da Presidência da República.
Para Albina Assis, frei João Domingos foi um servidor do povo: "a única missão que temos como cristãos e dada por Deus é servirmos e amarmos. Porque é nestas duas virtudes que encontramos a paz e a harmonia e frei João Domingos possuía estas virtudes. O nosso frade dominicano deixou uma mensagem de fé, paz e amor e espero que os seus ensinamentos se mantenham nos nossos corações".
O ministro Pinda Simão considerou a homenagem como sendo um sinal de gratidão por tudo o que o frei João Domingos fez pelo povo angolano: "frei João Domingos dedicava todo o seu tempo e inteligência ao bem-estar das comunidades, realizando actos sobretudo no domínio da educação. Formou a juventude fundamentalmente em acção social". O ministro da Educação, amigo pessoal de frei João Domingos, falou da maturidade espiritual do homenageado. "Para mim, particularmente, ele era uma fonte de coragem. Fosse nos momentos difíceis ou de alegria frei João Domingos estava sempre presente. Recebi dele palavras de encorajamento que me ajudaram na realização das minhas tarefas", revelou Pinda Simão.
Hoje, prosseguiu, esta homenagem paga o preço que ele mereceu enquanto esteve connosco, "os exemplos de frei João Domingos devem ser seguidos", disse o ministro da Educação.
Eunice Inácio, activista dos direitos humanos que trabalhou com frei João Domingos na construção do programa de paz e cidadania em Angola, referiu que "esta foi uma homenagem merecida, tendo em conta o trabalho que ele vinha desenvolvendo em Angola. Frei João Domingos deixou um legado do amor ao próximo. Ele sempre se entregou à causa dos mais sofredores, dos injustiçados e lutou pelo bem-estar e educação da sociedade".

Um ano de saudade

Frei João Domingos faleceu a 9 de Agosto de 2010, aos 77 anos. Passa hoje,  terça-feira, 9 de Agosto, um ano desde o seu desaparecimento físico. Em 28 anos de missão evangélica em Angola, além de promover a formação intelectual dos frades e da juventude angolana, através do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) e do Instituto Superior João Paulo II, destacou-se pelas suas homilias nas missas onde conseguia tocar o sentimento dos angolanos.
Foi uma das vozes da Igreja Católica mais ouvidas pelos crentes e pela população em geral, já que as suas mensagens abordavam aspectos sociais.
Frei João Domingos nasceu na aldeia da Torre, concelho do Sabugal, Portugal, em 1933. Aos 18 anos entrou para a Ordem dos Pregadores. Formou-se em Portugal e no Canadá, onde foi ordenado padre e fez o leitorado e a licenciatura em Teologia, em 1959, e o mestrado, em 1968.
Fez estudos de pós-graduação em Estrasburgo e na Escola Bíblica de Jerusalém. Foi director do Instituto São Tomás de Aquino, em Lisboa, de 1977 a 1982, e professor de Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Fixou-se em Angola em 1982, tendo trabalhado no Waku Kungo até 1988.
Nesse ano, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) entregou-lhe a gestão do Instituto de Ciências Religiosas de Angola, onde foi reitor durante 20 anos.
O frei João Domingos foi fundador e primeiro reitor do Instituto Superior João Paulo II. Em 1998, foi agraciado com a comenda da Ordem de Mérito do Estado Português.