segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um pastor ‘conduzido’ pelo rebanho

A pesar de votada ao abandono e ao esquecimento por parte da congregação dos Capuchinhos, a Igreja Nossa Senhora das Victórias sempre foi recebendo a peregrinação de fiéis idos das províncias de Malanje e KuanzaNorte.
Estando a igreja numa tal situação de abandono, degradação física, com as paredes a serem tomadas por raízes da mítica mulembeira, compreender o apego das pessoas ao local depois de longas caminhadas parece inexplicável.
O que parece claro é que a história de Massangano, a fortaleza da sua igreja e a crença nos seus poderes pode ter reacendido nos descendentes das gentes do Ndongo.
Como diria a ministra Rosa Cruz e Silva, “o fogo dos ancestrais” queimou o interior das pessoas, falou mais alto e reencaminhou as suas gerações para aquele lugar para reaprender a importância e o valor da região.
O actual superior da congregação dos Capuchinhos em Angola conta, numa perspectiva religiosa o que pode ter-se passado ali para que de supetão Massangano, particularmente a sua igreja, reganhasse vida.
“O ser humano é um peregrino por excelência e tende partilha experiências com outros povos, isso faz parte da lógica da peregrinação”, disse o padre Moisés Lucondo… No princípio eram pequenos grupos que davam sentido à palavra grega “paróquia”, peregrinação. Com o conhecimento dessa realidade pela congregação dos Capuchinhos, a Igreja católica destacou o seu superior para acompanhamento aos fiéis.
“Quando cheguei, fiquei aqui duas semanas e pessoalmente comecei a limpar a Igreja. Visto isso, os fiéis acompanharam-me, acabámos de limpar a igreja e ainda guardo os troncos das árvores que tinham crescido nas suas paredes”, lembra o frei Moisés Lucondo.
Diante do quadro de degradação, e porque era preciso valorizar também os quatro séculos de existência, a igreja decidiu ela própria buscar os fundos para restaurá-la.
“O pouco de muitos ajudou a reerguer a igreja. A Sonangol, as pessoas singulares; agradeço a todos”, disse a O PAÍS o superior dos Capuchinhos para quem não se deve continuar a olhar para as ruínas.
Igreja Nossa Senhora das Victórias é assim nomeada em homenagem à vitória da armada brasileira comandada por Salvador Correia de Sá que, em auxílio dos portugueses, derrotou os invasores holandeses e à sobrevivências do próprio Paulo Dias de Novais.
A construção das bases da igreja
Foi iniciada construir em duas etapas, tendo a primeira começado em 1606 com a construção das três colunas e paredes voltadas para o Rio Kuanza, que foi dedicada à Imaculada Conceição, nome por que ficaria conhecida a paróquia concluída em 1620.
Segundo o padre superior dos capuchinhos, os primeiros habitantes na mesma foram os jesuítas que, entretanto, cederam aos capuchinhos que a administraram desde o século XVII até ao Século XIX altura em que foram expulsas todas as ordens religiosas que se opunham ao tráfico de escravos.
Esta cedência resultou, segundo o prelado, da intercessão da Rainha Jinga, ela que desenvolveu empatias com os padres capuchinhos, para a libertação de alguns padres aprisionados na Barra do Kuanza e levados a Massangano onde acabaram por ficar e com a direcção da igreja.
Em reconhecimento da sua importância histórica, as autoridades coloniais inscreveram a igreja na lista do património nacional português em 1923.
No plano espiritual, era muito activa e frequentada por pessoas de várias origens e a interacção se fazia também entre cidadãos de várias nacionalidades. O primeiro frade capuchinho angolano saído de Massangano era capelão de Dom Afonso, rei do Kongo, ambos morreram na Batalha de Ambuíla.
Os restos mortais de 19 capuchinhos oriundos da Itália, França, Espanha, Holanda e Portugal ainda se acham enterrados no primeiro cemitério vedado de Angola, situado em Massangano.
O túmulo de Paulo Dias de Novais está implantado mesmo em frente à Igreja Nossa Senhora das Victórias, mas actualmente já com um significado simbólico, pois segundo o superior dos Capuchinhos, Moisés Lucondo, “o corpo foi levado para Luanda e não se sabe onde foi posto”.
A nova era da igreja…
A congregação dos capuchinhos obteve por escrito autorização para reabilitar a igreja em Dezembro de 2010 e com o curso dos trabalhos podem estar concluídos em Outubro próximo.
Ao mesmo tempo que uma empresa de construção chinesa recupera a parte física da igreja, “uma equipa de Roma fez estudos para concluir o restauro das imagens originais”. Segundo Moisés Lucondo, estas imagens foram feitas em madeira e voltarão à igreja assim mesmo. Depois de tudo, em Dezembro próximo, a Igreja Nossa Senhora das Victórias não será a mesma.
Neste momento, os peregrinos acampam no redor da igreja e a congregação dos capuchinhos destacou para o local três padres para lhes prestar assistência espiritual, dormindo nas mesmas condições que os seus fiéis.
Aos fins-de-semana, o número de fiéis é espantosamente grande como pôde ser constatado.
Antevendo esta realidade o padre Lucondo recomenda a tomada de medidas urgentes para a acomodação dos peregrinos.
“O governo tem de fazer algo para acomodar os peregrinos”, recomendando igualmente a tomada de medidas para que a vertente turística seja explorada o mais breve possível para que se possa manter estas relíquias da história angolana.
“Se tudo isso ficar em ruínas, a própria humanidade há-de julgarnos”, adverte o prelado.
Contou mesmo um episódio recente de dois cidadãos americanos que permaneceram em Angola durante dois meses, fotografaram profusamente as ruínas de Massangano e Cambambe e agora sabe que o casal acaba de publicar um livro histórico sobre a região.
“Nós, infelizmente, não sabemos aproveitar as coisas. Ninguém cuida disso e qualquer pessoa pode fotografar”, acrescentou o padre que recordou uma experiência sua em Cabo Verde, onde ao entrar nos monumentos da cidade velha foi obrigado a pagar, acontecendo o mesmo com as relíquias da própria igreja de que é padre.
“Em Milão não entras numa dessas igrejas sem pagar, mesmo que sejas padre e quem está lá a cobrar é o próprio governo”.
Consta, entretanto, que o governo do Kuanza tem um plano de requalificação urbana de Massangano que deverá contar com locais de acolhimento para as pessoas que eventualmente visitarem o local, entre outras infra-estruturas.
A simpatia de Jinga com os capuchinhos
Após o seu baptismo, a Raínha do Ndongo, Jinga Mbande, desenvolveu uma simpatia fraternal com os padres capuchinhos que esteve na origem do seu envolvimento em missão de bons ofícios para a libertação dos padres desta congregação de origem espanhola.
Na altura Portugal e Espanha andavam em desavenças devido ao controlo de possessões pelo mundo. Mas porque se achava entre os capuchinhos um cidadão francês, foi possível negociar a liberdade.
A sua fé cristã foi de tal ordem que, segundo o padre Lucondo, “a Raínha Jinga foi enterrada com um hábito igual a este (indicava o seu)”. Entre outros actos de demonstração da sua fé está a construção de uma igreja dedicada à Santa Ana na região do antigo Reino da Matamba.
“A igreja Sant’Ana de Caxito não é a primeira”, lembrou opadre Moisé Lucando.

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