sábado, 20 de agosto de 2011


Manuel Inocêncio Sousa: 'Não serei ausente'
por Pedro Guerreiro
Em entrevista ao SOL, o candidato apoiado pelo PAICV assume uma grande amizade com o primeiro-ministro cabo-verdiano mas garante um mandato de isenção, intervenção e dinamismo através de uma nova «engenharia presidencial».José Maria Neves encontrou no seu 'ministro do betão' - um cerebral e discreto engenheiro civil de 60 anos - a grande cartada liberal contra piristas e MpD para consolidar uma nova fase da vida política do PAICV e de Cabo Verde. Nascido no Mindelo e mestre em Engenharia Sanitária, Manuel Inocêncio Sousa foi membro da comissão política do PAICV desde 1988 e ministro das Infra-estruturas, Transportes e Telecomunicações desde 2002. É o rosto identificado com as grandes obras públicas realizadas na última década em Cabo Verde. Após a vitória nas 'primárias' do PAICV, que posteriormente se dividiu em torno de três candidaturas, Inocêncio Sousa terminou a primeira volta das presidenciais em segundo lugar. Espera agora que um partido pacificado lhe possa dar a vitória no domingo.

Vê nos resultados da primeira volta uma vitória moral sobre a ala conservadora do PAICV?


Não encaro os resultados que obtive na primeira volta destas eleições presidenciais a partir de tal perspectiva. Encaro-os como a vontade do povo soberano e como o cumprir de um dos objectivos da minha candidatura: posicionar-me à segunda volta, pois partimos com mais duas respeitáveis candidaturas, por sinal da área do PAICV – a de Aristides Lima e a de Joaquim Monteiro. Foi, de certa forma, uma vitória relativa da minha candidatura, posicionando-me para a finalíssima com o meu adversário, que é apoiado pelo MpD

Espera uma declaração de apoio por parte de Aristides Lima? Já falou com ele?

Saudei e felicitei os candidatos Aristides Lima e Joaquim Monteiro pelo enorme contributo dado a estas eleições. Com eles, ao longo destes anos, tenho mantido relações respeitosas e cordiais e nunca pus a legitimidade de concorrerem à Mais Alta Magistratura da Nação. O campo político do PAICV, de onde vem muito dos apoios que tenho, se dividiu pelos três candidatos durante a primeira volta, mas no actual contexto eleitoral ele tende a estruturar-se em torno da minha candidatura. Sendo assim, é naturalmente que eu conte com o voto de Aristides Lima e de Joaquim Monteiro, assim como o de Felisberto Vieira, de Sidónio Monteiro, de Júlio Correia, de Arnaldo Andrade e de tantos outros, com os quais comungo alguns dos grandes ideais sobre Cabo Verde. Acabo de receber a confirmação de apoio político da Comissão Política de Santiago Sul do PAICV, tendo à frente Felisberto Vieira, que exorta todos os militantes e amigos a um apoio massivo à minha candidatura nesta segunda volta.

Teme uma cisão do PAICV? De que forma tentará pacificar o partido?


Tendo deixado a Vice-presidência desse partido para concorrer à Presidência da República, onde terei responsabilidades supra-partidárias, estas questões devem recair sobre os órgãos competentes do PAICV. É claro, que como todo cabo-verdiano, tenho a consciência que uma crise no PAICV, terá um impacto negativo sobre Cabo Verde e é isto que pode me preocupar. No entanto, conhecendo a cultura organizacional do PAICV, e sabendo que o pulsar democrático no seio do PAICV, que se pretende tensão interna, faz parte do processo normal de uma organização aberta e democrática, tenho confiança que saberão dar a resposta de responsabilidade que todos os cabo-verdianos esperam deste Partido que foi eleito ha poucos meses para realizar o seu programa de transformação.

Como responde ao «compromisso ético» proposto pelo candidato do MpD e às acusações de ilegalidades?

A minha candidatura sempre manteve o compromisso ético para com os adversários, os eleitores e as autoridades eleitorais. O documento proposto pelo mandatário do meu adversário é recorrente, não é de sua autoria, nem acrescenta novidade à nossa prática política. Neste caso, quis-se fazer um jogo de charme, isto dito com eufemismo, pois na verdade foi uma tentativa de «golpe de imagem». Foi uma tentativa de ressonância mediática. Mas a minha candidatura não se fez rogada e se prestou a «viabilizar» tal documento. Afinal, nunca é demais reafirmar o mesmo quando se fala em qualificar o processo eleitoral democrático porque sempre estaremos disponíveis para apoiar medidas que assegurarem a transparência dessas eleições, porque acreditamos que é a melhor forma de prestigiar as nossas instituições e a nossa democracia

Apesar de um longo percurso político, cultiva um perfil discreto. Como se apresenta, politica e pessoalmente, aos eleitores?

Sou discreto, modesto e simples. Mas tenho uma enorme ambição por Cabo Verde, motivo da minha vida de entrega e empenho. A minha motivação por estas eleições é Cabo Verde, poder ajudar a cumprir o sonho de Amílcar Cabral e o desígnio permanente dos Cabo-verdianos – a soberania, a democracia e o desenvolvimento. Os eleitores já me conhecem. Sabem que sou um homem de trabalho e de acção. E que tenho sentido de justiça, de isenção e de Estado. Um homem incapaz de trair, de abandonar e de mudar da palavra dada. Sempre joguei limpo com Cabo Verde.

É inegável a proximidade pessoal e política a José Maria Neves, tendo sido um membro-chave do seu Executivo desde 2001. Como pretende fazer a passagem para uma figura institucional que terá de fiscalizar e por vezes censurar a acção do Governo do PAICV?

José Maria Neves é um dos meus grandes amigos. Tenho com ele uma trajectória comum e por ele profunda admiração. Ambos temos a consciência dos nossos estatutos e papeis a cada momento e pautamos as nossas relações pelo respeito. Ambos somos Servidores do Estado de Cabo Verde. Como Presidente da República, estarei imbuído de poderes de árbitro, moderador e promotor do sistema político, terei a missão de cumprir e fazer cumprir a Constituição Nacional e cumprirei com parcimónia as minhas funções de Mais Alto Magistrado da Nação. Tenho um historial de cumprir os meus papéis familiares, sociais, políticos e institucionais, por isso dou garantias de estabilidade e de capacidade.

Quais são as suas prioridades para a Presidência?

A prática do preceito constitucional por todos, a reinterpretação do papel do Presidente da República no sentido de mais acção e mais dinamismo em prol dos fundamentais – soberania, democracia e desenvolvimento. Pretendo ser um parceiro institucional activo na materialização da Agenda de Transformação de Cabo Verde, manter equidistância e diálogo institucional entre o Governo e a Oposição, promover a Cidadania e ampliar a boa imagem externa de Cabo Verde, bem como densificar a formatação da Nação Global, convergindo todos os Cabo-verdianos, nas ilhas e no Mundo, para a idealização e materialização de um Cabo Verde mais plano e mais pleno.

Quais os grandes desafios do país para os próximos anos?

Reduzir o desemprego, aumentar o crescimento, ampliar a competitividade, capacitação para a plena integração mundial e regional, mais desenvolvimento social, mais valores da família e da sociedade, habitação para todos, suficiência e eficiência energética, mais água, mais agricultura, mais turismo, educação a todos os níveis de qualidade, enfim cumprir todas as oito metas dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio. Muito já se fez nos últimos anos, mas muito falta ainda empreender. É o papel de todos empreender por Cabo Verde, inclusive o do Presidente da República, que não pode ter uma visão estática e meramente judiciosa dos seus poderes constitucionais.

Na política externa, promoverá uma agenda diferente do Governo? As relações com os países lusófonos mantêm-se prioritárias?

Em Cabo Verde existe um consenso nacional sobre os fundamentais da nossa política externa. Em tempo de crise internacional teremos de consolidar a unidade nacional a volta da nossa política externa e consultarei regularmente todos os actores nacionais, oposição e governo, para manter este consenso. Trabalharei em sinergia com o Governo para potencializar as nossas intervenções respectivas. Naturalmente que as relações com os países lusófonos se mantêm na linha das prioridades seja a nível bilateral seja a nível da CPLP. O reforço da parceria especial com a União Europeia e da integração regional no quadro da CEDEAO, a densificação das relações com os nossos parceiros de cooperação e a densificação das relações diplomática, introduzindo nelas a diplomacia económica, com os grandes players a nível global, como os EUA, o Brasil, a Rússia, a China e a Índia e os a nível do nosso continente como a Angola e a África do Sul constituirão também elementos importantes da nossa política externa em sintonia com o Governo e ouvindo a oposição.

Caso seja eleito, de que forma pretende utilizar o seu peso institucional na resolução de problemas correntes como o preço dos bens essenciais e o abastecimento de água e electricidade?

Não serei um Presidente da República ausente ou refugiado no gabinete do Palácio do Plateau. Assim como ajudarei a potenciar a Agenda de Transformação nas suas vertentes mais virtuosas, estarei disponível a colaborar na resolução das carências e dos condicionalismos. O problema da água e da energia, bem como de segurança pública e do desemprego, a par da pobreza, merecerão a minha atenção. A mesma atenção darei à criação de riquezas, para que haja margens de distribuição social, e na continuação da modernização de Cabo Verde. Sou empreendedor. Mais do que currículo, tenho portefólio do ter feito e do ir fazendo. É uma nova engenharia presidencial que proponho aos Cabo-verdianos.

Independentemente do resultado da segunda volta, conta um dia regressar ao Executivo?

Esta questão não se põe neste momento. O que polariza a minha motivação, energia e atenção é ganhar as Presidenciais e ser o Presidente da República que Cabo Verde precisa e merece nesta segunda década do século XXI. Aprendi de Amílcar Cabral, em ser homem do meu tempo e saldar a minha dívida para com a História. Sou um homem de causas e de luta, sendo Cabo Verde, sempre Cabo verde, a razão principal deste momento em que concorro ao mais alto cargo da Nação.

pedro.guerreiro@sol.pt

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