domingo, 24 de julho de 2011

O nascimento do clero africano em Angola

O clero angolano nem sempre foi bem aceite tanto pelos eurooeus como pelos nacionais
Fotografia: Jornal de Angola
Afirma Martins dos Santos, que as tentativas para remediar o défice de missionários, com a ordenação de um maior número de sacerdotes nativos, acabaram por não corresponder às expectativas, uma vez que os mesmos eram considerados incapazes de exercer a influência necessária junto dos seus compatriotas. “Estes viam-nos com certa desconfiança, considerando que fossem mandatários servis dos brancos, membros renegados e degenerados da sua raça ou da sua tribo.” Os europeus não aceitavam a orientação religiosa dos padres nativos, logo, os seus ensinamentos eram menosprezados. A preparação eclesiástica do clero nativo era deficiente, já que as aulas e os próprios cursos não funcionavam com regularidade, uma vez que naquele tempo, ainda não existia seminário. Chegou-se a acusar o bispo de ordenar padres que liam mal e compreendiam o latim litúrgico com dificuldade. Daí, os sacerdotes africanos serem pura e simplesmente considerados analfabetos, o que os fazia sentir diminuídos face aos seus colegas europeus.
A 12 de Janeiro de 1674, ocorre a morte do famoso historiador padre João António Cavazzi de Montecúcculo, perfeito da ordem dos capuchinhos e das missões dependentes da Sagrada Congregação da Propagação da Fé, um ano após ter sido vítima de um naufrágio.
Em 1722, ao tempo do governador António Albuquerque Coelho de Carvalho, trabalhavam em Angola cinco carmelitas descalços e dois frades da Ordem Terceira de S. Francisco. A Companhia de Jesus mantinha o seu colégio, ou residência de Luanda, com poucos elementos. Aquele governador-geral censurava com veemência os missionários que se desculpavam com a questão do clima e enaltecia a actividade dos capuchinhos, que o enfrentavam, não recuando ante as tarefas evangélicas a realizar.
A 1 de Maio de 1760, o governador-geral António de Vasconcelos ordenou ao governador do presídio de Massangano que tomasse conta de todos os bens que os jesuítas ali possuíam. Procurou evitar a fuga dos escravos da Ordem e ordenou que os restantes haveres se não extraviassem. Ditou orientações idênticas para outros pontos do interior, onde a Companhia de Jesus tinha propriedades: Muxima, Icolo e Bengo, Dande, Calumbo.” No dia 11 de Maio, o colégio de Luanda foi cercado pela tropa e os jesuítas encarcerados.
A 18 de Novembro de 1772, chegava a Luanda D. Frei Luís da Anunciação e Azevedo, na companhia do governador D. António de Lencastre, o qual levava instruções do Marquês de Pombal para proibir o uso do catecismo dos Jesuítas de 1642, em kimbundu, mandar recolher os exemplares impressos e manuscritos existentes, para remetê-los posteriormente para Lisboa. Afirmava o Marquês de Pombal, que esta sua medida proibitiva, se destinava a facilitar o uso da língua portuguesa entre os negros. Mas em 1784, a rainha D. Maria I ordenou a terceira edição do catecismo. De recordar que pela lei de 3 de Setembro de 1759, o Marquês de Pombal mandou extinguir a Companhia de Jesus, o que deixou ao abandono as formas de instrução existentes na época, por falta de quem ensinasse.
No dia 18 de Julho de 1760, os Jesuítas deixaram o seu colégio de Luanda e embarcaram no dia seguinte para o Rio de Janeiro. Para suprir a falta dos Jesuítas, uma carta régia de 11 de Novembro de 1772, criou na cidade de Luanda, um lugar de mestre de ler e uma aula de gramática latina. As missões pouco ensinavam para além da catequese, conhecimentos bíblicos e teológicos. Os grandes marcos da cultura de expressão portuguesa dos séculos XVI, XVII e XVIII foram, de forma directa ou indirectamente, inspirados na realidade das chamadas viagens de além-mar.
D. Manuel de Noronha, marquês de Tancos, que governou Angola de 1713 a 1717, afirmava “que os padres de Angola, sem excluir os de Luanda, eram quase todos bêbados e desonestos, vivendo em estado de mancebia, sem se importarem com o escândalo do seu procedimento, nem com o mau exemplo que davam aos nativos e colonos.” Um missionário capuchinho da época, frei Miguel Ângelo Nossez, afirmava que “os padres que exerciam o seu ministério no interior de África, ou eram criminosos fugidos à justiça, ou eram condenados a degredo e enviados para os presídios ou povoações do interior, ou então, eram autênticos comerciantes que procuravam aumentar os seus cabedais, negociando com o gentio e muitas vezes mesmo em escravos.”

No último quartel do século XVIII, na sequência de um relatório solicitado por D. Maria I, através de aviso régio de 17 de Junho de 1778, a rainha pediu aos bispos do reino e de modo particular aos de Coimbra, que convidassem o clero secular, que lhes estava sujeito, a oferecerem-se para ir para Angola. Considerava D. Maria I ser necessário dar novo incremento à obra evangélica já que, desde longa data, Portugal estava empenhado neste processo. Mas, as reacções do clero ficaram aquém do desejado, apesar de no dia 4 de Dezembro de 1779, ter chegado a Luanda uma missão composta por 17 padres de diversas congregações religiosas e um sacerdote secular.

Barbadinhos italianos

As estatísticas informam-nos que de 1645 a 1653 entraram em Angola e Congo 53 padres capuchinhos. Mas, neste último ano, só 23 lá missionavam. Os restantes ou morreram ou regressaram à Europa tolhidos pela doença. Outros dados estatísticos referem que, entre 1645 e 1707, desembarcaram nos reinos do Congo e do Ndongo, 181 sacerdotes e 31 irmãos, ao todo 212, dos quais 109 morreram em África ou pereceram nas viagens.
A 3 de Outubro de 1797, o governador-geral de Angola, D Miguel António de Melo, conde de Murça, pedia ao príncipe regente que “ordenasse aos superiores das ordens religiosas, que se dedicassem à actividade missionária, nomeadamente os franciscanos e os carmelitas descalços, pois mantinham convento em Luanda, mas que escolhessem membros dotados de verdadeiro espírito evangélico para virem doutrinar nestas terras.” Era desejo deste governador-geral combater a tibieza e o materialismo que se haviam generalizado. Também informava a corte, que os “barbadinhos” italianos eram os mais zelosos e exemplares missionários que trabalhavam em Angola.
No final do século XVIII, existiam em Angola 39 sacerdotes assim distribuídos: “26 seculares, sendo seis europeus, quatro brasileiros e 16 africanos; 13 regulares, sendo três capuchinhos, cinco franciscanos e cinco carmelitas.” Mas “apenas os capuchinhos nada tinham de especial a referir em seu desfavor. Um dos carmelitas, estava suspenso de ordens, tendo sido enviado para Angola em cumprimento de pena de degredo, agravada com aquela suspensão; outro estava preso por ordem do prelado, em castigo de crimes relativos ao ministério sacerdotal; um dos religiosos franciscanos havia sido condenado a prisão perpétua por crime de homicídio e roubo; havia um outro que cumpria pena de três anos de prisão por delito de furto e esfaqueamento; o terceiro fora condenado a dez anos de degredo; finalmente o quarto estava em África, em cumprimento de pena judicial de que não eram dados pormenores, tendo sido remetido para Angola pelo intendente geral da polícia.”
Uma lista oficial da situação dos religiosos, missionários em Angola, de 3 de Maio de 1794, indica-nos que “havia um capuchinho na Missão do Congo, outro no Hospício de Santo António, em Luanda, e um terceiro na Missão do Bengo; no convento carmelita de Luanda vivia um religioso da respectiva congregação; contava-se na cidade um frade louco; estavam também aqui em Luanda três franciscanos, dois deles condenados a cárcere (ou degredo) perpétuo”.

Vazio na educação

Até ao início do século XIX, havia em Luanda, segundo Orlando Ribeiro, uma população flutuante de traficantes de escravos, funcionários, religiosos e degredados. As primeiras mulheres de origem europeia só haviam chegado, em 1595. Daí, “a mestiçagem corria parelhas com a soltura de costumes.” A primeira metade do século XIX em Portugal foi repleta de acontecimentos na história de Portugal. De salientar, as invasões francesas, a mudança da corte para o Rio de Janeiro e o seu regresso a Lisboa, o estabelecimento do regime constitucional, a independência do Brasil, a guerra civil entre os irmãos D. Pedro e D. Miguel, lutas liberais, revoluções internas. Do ponto de vista cultural, missionário e educacional, há um vazio na história da educação em Angola que, evidentemente, não passa despercebido.
O decreto de 28 de Dezembro de 1833 determinava que os bispos do reino promovessem entre os membros do clero das suas dioceses, o recrutamento voluntário de pelo menos 200 sacerdotes, que quisessem trabalhar nas missões católicas em Angola. Mas nem um só se perfilou. Era a segunda tentativa do género, que não havia chegado a resultados desejados, o que leva a concluir que o “ideal missionário era pouco apreciado pelo clero nacional português. No entanto, a metrópole tinha nesse tempo abundância de sacerdotes e poderia ceder os missionários de que se precisava, sem grande custo e sem afectar as obras católicas em que eles se ocupavam. A tibieza e o desinteresse que existia em Angola eram reflexo e, possivelmente, o fruto do que se estendia pelo reino.”
Através do decreto de 28 de Maio de 1834, segundo o livro do padre Almeida Silvano, Defesa das Ordens Religiosas e Análises do Relatório do Mata-Frades, as congregações foram banidas de todo o território nacional português, por Joaquim António de Aguiar, o que constituiu um rude golpe para as Missões Católicas Ultramarinas. Neste período, a actividade missionária nas terras angolanas, continuava a enfermar por uma profunda e orgânica anemia.
 O número de membros do clero regular na época não está perfeitamente determinada. Mas não deveria ir além de meia dúzia. Quanto ao clero secular, havia vinte e sete sacerdotes, sendo vinte e três angolanos, três portugueses e um brasileiro. Por esta altura, em Luanda, só havia um capuchinho e um carmelita. Um outro carmelita descalço encontrava-se perto do Gulungo Alto. Este decreto não registou alterações do ponto de vista missionário a sul do rio Kwanza. No dia 7 de Maio de 1835 embarcou no Porto de Luanda, com destino a Itália, o último missionário capuchinho, Frei Bernardo do Burgio.

Abolição da escravatura

A 10 de Dezembro de 1836, um decreto de Sá da Bandeira procura abolir de imediato o tráfico negreiro levado a cabo por navios portugueses, a partir de territórios portugueses. Mas, só entre 1845-1848 se começaram a sentir os efeitos da aplicação concreta deste decreto, apesar de um tratado anglo-português de Julho de 1842, estipular que o tráfico que utilizasse barcos portugueses seria considerado como acto de pirataria.
Em 1845, a diocese de Angola e Congo, que desde de 1677 se subordinava à Sé metropolitana da Baía, no Brasil, passou a depender do Patriarcado de Lisboa, uma vez que o Brasil se havia tornado um país independente, a 7 de Setembro de 1822.
Para melhorar o desempenho do clero nativo, o decreto de 23 de Julho de 1853 criou o Seminário Episcopal de Luanda, com o fim de servir as dioceses de Angola e de S. Tomé, suprir a falta de liceu e demais aulas públicas e fazer de hospício de missionários. Mas até abrir, o governo autorizou que o prelado enviasse para o seminário de Santarém seis alunos por ele escolhidos.
Em princípio de Novembro de 1861, o bispo D. Manuel de Santa Rita Barros, abriu o seminário diocesiano e instalou-o no edifício do Paço, antigo colégio de Jesus, mas em 1866, o encerrava. Os quatro sacerdotes que nele haviam concluído os seus estudos, eram todos europeus. Em 1876, o bispo D. Tomás Gomes de Almeida mandou para Portugal dois nativos e confiou a sua educação aos beneditos de Cucujães. Um deles veio a ser ordenado presbítero e regressou à diocese. No dia 15 de Outubro desse ano reabriu o seminário diocesano, numa casa arrendada.

Ensino do latim

Em 1882, por portaria episcopal de 7 de Outubro, o seminário foi transferido para a Huíla e entregue aos padres da Congregação do Espírito Santo. Nesse mesmo ano o padre Duparquet principiou em Lândana o ensino do Latim, com um único aluno.
Em 1878 já havia em Lândana três estudantes de Latim, em 1879 seis e 11 em 1885. Mas quando o padre Carrie, que chefiava a missão, foi nomeado perfeito apostólico de Luango, levou consigo os seminaristas.
O seu sucessor prosseguiu na tarefa com novos alunos. Em 1890 eram já 14. Em 50 anos, cinco foram ordenados.
Na missão do Cubango havia, entre 1922 e 1932, 40 candidatos. Mas apenas um presbítero foi ordenado, em 1934. O Seminário da Lunda abriu com 11 alunos. Em 1934, tinha 50 alunos. Mas, em 1940, nenhum deles havia ainda concluído os estudos. Na Huíla, só em 1895 foi ordenado o primeiro presbítero, apesar de alguns seminaristas serem naturais da Madeira e de S. Tomé e Príncipe.
De Luanda, o seminário da Huíla recebeu em 1882 12 estudantes; em 1888, eram já 20, em 1890 45 e, em 1895, 80 seminaristas. Posteriormente a frequência começou a diminuir, em média, uns 20 em cada ano, até 1902. Como em 1905, verificou-se que a frequência havia baixado ainda mais, o prelado transferiu o seminário para Luanda. Durante a sua permanência na Huíla, apenas três sacerdotes foram ordenados.
Em Janeiro de 1907, o seminário diocesano regressava a Luanda e, no dia 17 de Julho, era solenemente inaugurado, sob a presidência do príncipe real D. Luís Filipe, que se encontrava de visita a Angola. Eduardo dos Santos refere que no dia 29 de Junho de 1910, D. João Evangelista de Lima Vital conferia ordens de presbítero a dois alunos do seminário diocesano, “ambos de cor”, os primeiros após a fixação do seminário em Luanda.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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