sábado, 30 de julho de 2011

"Estamos a reduzir a pobreza na província"

"A principal dificuldade reside no escoamento dos produtos para os grandes mercados"
Fotografia: Fabricio Almeida
A situação económica da província do Bié, durante o primeiro semestre, foi considerada razoável e houve grandes avanços nas áreas da saúde, educação, agricultura, assistência social, desporto, cultura e da família e promoção da mulher. Em entrevista ao Jornal de Angola, o vice-governador para a área política e social, Afonso Jorge Assafe, explica como foram possíveis os avanços registados e as áreas que merecem prioridade do governo para reduzir a pobreza na região.

Jornal de Angola - Que avaliação faz da situação social e económica da província?
Afonso Assafe - Assistimos a um crescimento nos sectores sociais e produtivos. A agricultura, desenvolvimento rural e pescas, incluindo o sector do comércio e da indústria têm avanços visíveis. Registamos crescimento de moagens, de carpintarias, serralharias, transportes e telecomunicações.

JA - Que indicadores tem sobre este crescimento?


AA - Os indicadores reais estão ligados às quantidades de projectos que estão a ser executados nos municípios. A estes podemos juntar os projectos que as Administrações Municipais estão a executar no âmbito do programa de combate à pobreza. Há também projectos em execução que estão a melhorar as condições nas áreas da educação e da saúde.

JA - Já é possível falar da redução da pobreza no seio das populações?
AA - Hoje já não dependemos da ajuda externa em termos da alimentação. Os apoios do Ministério da Agricultura aos camponeses e pequenos ou médios produtores estão a fazer com que a produção agrícola aumente e forneça alimentos para consumo interno e para exportar para outras regiões. Estamos até a criar reservas de sementes para a próxima campanha agrícola.

JA - Qual é o resultado do programa de combate à pobreza?
AA - Se tivermos em conta a produção das nossas populações, por exemplo do município do Andulo, podemos dizer que no caso da agricultura é impressionante. Estou há mais de 15 anos a trabalhar no governo do Bié e fiquei impressionado com a quantidade de produtos que estiveram expostos na feira do Andulo. Os municípios do Chinguar, Catabola e Camacupa também demonstraram um enorme potencial agrícola. Os agricultores estão a mostrar a qualidade dos seus produtos e também os resultados do crédito de campanha do Executivo. Isso explica que a pobreza está a diminuir.

JA - Ainda há casos de fome na província?

AA - Quanto à fome, seguramente que existem em alguns casos, porque há sempre pessoas que não querem produzir. O governo aposta nos que querem produzir. O nosso mercado está bem abastecido de produtos do campo com qualidade.

JA - Quais os programas ligados ao combate à pobreza?

AA - O grosso dos programas executados nos municípios tem a ver fundamentalmente com o combate à fome e à pobreza, porque têm maior suporte financeiro. As acções estão a incidir nos sectores da educação, saúde e na criação habitações para os quadros técnicos. As acções do programa foram identificadas pelas Administrações Municipais e aprovadas em reuniões locais de auscultação e concertação social.

JA - Existem fundos específicos para estes projectos?

AA - Sim. Há fundos para os programas municipalizados de saúde onde as administrações têm verbas para intervenções ligadas à saúde pública. Um representante da UNICEF afirmou que no continente africano, só em Angola é que há um fundo específico para o sector da saúde e que vai levar como experiência para os restantes países.

JA - Que políticas estão a ser executados para o escoamento dos produtos do campo?
AA - Nas comunas o maior problema é o mau estado das estradas secundárias ou terciárias. A região de Sachinemuna, no município do Cuemba, está a produzir arroz, mas o acesso é precário principalmente na época chuvosa. O Andulo  está a produzir café arábica, mas também encontra dificuldade para o seu escoamento.
Com o programa de reabilitação de algumas vias secundárias e terciárias levado acabo pelo governo, sobretudo nos municípios de Catabola e Andulo. Com o avanço da reabilitação do Caminho-de-Ferro de Benguela, que entra em funcionamento em Setembro, pensamos que vai ser mais fácil escoar os produtos agrícolas. O CFB atravessa seis dos nove municípios do Bié.

JA - Como está a produção de cereais?
AA - Existem alguns parceiros privados interessados neste sector. Em Camacupa, na área da Catenga, próximo do rio Cuquema, temos mais de 2.500 hectares onde estão a ser produzidos cereais. Quando o embaixador do Japão visitou o Bié mostrou interesse em financiar a produção de cereais aqui na província. Temos bons indicadores nos municípios de Camacupa, Cuemba, Cuito e Catabola, que são grandes produtores de cereais. Há um projecto aprovado recentemente pelo Conselho de Ministros que apoia a produção em grande escala na região de Camacupa.

JA – É possível evitar as importações?

AA - O objectivo é deixarmos de importar produtos que localmente temos capacidade de produzir. Estamos a consumir arroz, farinha de trigo e café importado, quando podemos produzir esses bens internamente. Dentro de três anos esta tendência vai ser invertida, porque temos potencial para isso e os bancos, através dos créditos de campanha, estão a facilitar o processo de produção agrícola.

JA - Quais as principais dificuldades para o desenvolvimento da agricultura?
AA – A principal dificuldade é o escoamento e o governo está preocupado com as vias de comunicação terrestres e ferroviária. Quando o comboio começar a circular a vida da população vai estar facilitada. Claro que os investidores, por mais apoio que se lhe garanta, vão assumir os riscos possíveis dos seus investimentos. É visível a produção praticada pelos camponeses e há necessidade do governo criar políticas para escoamento dos produtos agrícolas.

JA - Como está a reintegração dos antigos combatentes?
AA - O processo está em curso e a maior parte dos assistidos nesta área estão registados. Actualmente, mais de 90 por cento dos assistidos estão cadastrados e recebem os seus subsídios. Há atrasos por falta de documentos para completar os processos.

JA - Os idosos e pessoas vulneráveis estão a ser apoiados?

AA - A direcção da Assistência e Reinserção Social tem a incumbência de apoiar os idosos e grupos sociais vulneráveis. Está a ser construída uma grande estrutura para acolher os idosos.

JA - Que políticas estão em curso para melhorar o sector da saúde no curto prazo?
AA - Houve fuga de quadros da saúde devido aos baixos salários, mas já foi aprovada uma nova tabela salarial. Outro aspecto tem a ver com a colocação dos quadros. Não há condições de alojamento. Por isso é que os programas de combate à pobreza visam minimizar as condições habitacionais. O novo projecto de construção de casas em cada município vai facilitar o processo de recrutamento de quadros para o interior da província. Em relação aos meios, no ano passado tínhamos falta de ambulâncias. Agora distribuímos ambulâncias em todos os municípios para facilitar o transporte de doentes.

JA – Qual é a estratégia para reduzir o número de crianças fora do sistema de ensino?

AA - Na área da educação também estamos bem. Muitas escolas foram reabilitadas e outras estão a ser construídas em todos os municípios ou comunas. Para solucionar o problema de crianças que estudam debaixo das árvores, o Governo Provincial adoptou o sistema da construção de estruturas com materiais pré-fabricados. As estruturas ligadas às instituições religiosas, como as missões, foram reabilitadas e transformadas em escolas para facilitar o ingresso de maior número de alunos. Actualmente temos mais de 600 mil alunos matriculados.

JA - Que projectos existem para melhorar a distribuição da água potável e energia?
AA - A distribuição de água potável já é razoável, mas é preciso fazer ainda mais. Aumentámos o número de perfurações e ligações domiciliárias na cidade do Cuito. Em termos da energia não teremos muitas dificuldades, porque estamos à espera da energia da barragem do Gove e da central de Caluapanda, que entra em funcionamento em breve. Com a falta de indústrias, a maior quantidade de energia vai para os domicílios.

JA - Como está o projecto de construção de condomínios na província?
AA - Existem empresas privadas que têm projectada a construção de condomínios para venda ao público através de crédito bancário, tal como acontece em outras localidades do país. Além dos projectos do governo, há igualmente interesse do sector privado em fazer construções para minimizar o problema da habitação.

JA - O que está a ser feito para a promoção do turismo?
AA - Reconhecemos que o turismo ainda está fraco. Há pouco investimento e temos enormes potenciais, muitas belezas naturais. Temos belas margens de rios, cascatas, lindas paisagens que devemos aproveitar.  Podemos citar como referência  a localidade de Camacupa, que tem a reserva natural do Cuemba, os rios Luando e Ngumba, com quedas longas, o Chitembo, onde nasce o rio Kwanza. São lugares que devem ser aproveitados para o turismo. 

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