Bispo alemão diz que Angola não precisa de armas
António Cascais, DW
O bispo de Rottenburgo-Estugarda, no sudoeste da Alemanha, ouviu com grande deceção a proposta da chanceler alemã sobre a venda de seis a oito barcos patrulha a Angola. Agora, lançou publicamente severas críticas.
O bispo católico de Estugarda, Gebhard Fürst, disse que Angola não precisa de armas, mas sim de um processo de paz. Declarações que foram agora reforçadas pelo seu porta-voz, Thomas Broch:
“Angola é um país com imensas riquezas naturais, mas essas riquezas não beneficiam as populações”, disse. “Há uma imensa pobreza, começando pela cidade de Luanda. Quem chega à capital angolana depara com um mar de bairros de lata, onde vegetam pessoas que não têm acesso aos mais elementares produtos do dia a dia. O que Angola precisa é de paz, do reforço dos direitos humanos e da democracia. O que Angola precisa é de um sistema de saúde que combate a mortalidade infantil e dos adultos. O que Angola precisa é de um sistema de educação. Angola precisa de muita coisa, sobretudo de um processo de reconciliação e de paz, mas não precisa de armas.”
Uma “grande tarefa” pela frente
Há vários anos que a diocese católica de Rottenburgo-Estugarda, mantém contactos em Angola. Thomas Broch conhece, ele próprio, o país. Esteve lá, pela última vez, em março deste ano, para participar num congresso sobre a paz, na capital angolana.
“Foi um congresso organizado pela Conferência Episcopal angolana, pela Cáritas Angola e pela nossa Diocese de Rottenburgo-Estugarda”, conta Broch. “Participaram no congresso mais de 200 pessoas, entre elas quase todos os bispos de Angola, e parceiros internacionais da Europa e do Congo. Todos estiveram de acordo de que Angola precisa de reforçar o processo de paz e isso só se consegue com justiça social, mais educação, mais saúde e respeito pelos direitos humanos.”
Uma das questões que mais preocupa o bispo de Estugarda é, nas palavras de Thomas Broch, o problema dos deslocados da guerra e dos refugiados.
Enquanto esse e outros problemas sociais não forem resolvidos, não se deveria investir em material de guerra: “Devíamos ajudar os refugiados a regressar às suas terras. Tanto os angolanos, como os congoleses. Devíamos apoiar a reconstrução das aldeias. As minas deveriam ser removidas. Os soldados adultos e antigas crianças-soldados deveriam ser reintegrados na sociedade”.
Por isso, Broch fala numa “grande tarefa” que todos têm pela frente. “A Igreja Católica sabe disso e tenta trabalhar nesse sentido. Mas trata-se de um problema que só poderá ser resolvido com a ajuda de toda a sociedade. E é isso que o nosso governo deveria apoiar, em vez de exportar armamento”, referiu.
Apelo a Angela Merkel
Thomas Broch apelou ainda ao executivo alemão: “Invistam em Angola, mas invistam em infraestruturas que beneficiem as populações. Não invistam em armamento e não façam negócios com governos que estão tão distantes da defesa dos direitos humanos”.
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