Artigos - Pedro Eugando
A criança e o início da educação formal em Angola
28 de Julho, 2011
A criança pode ser definida como sendo “pessoa jovem, com pouca experiência de vida”. Diz-se que a criança quando nasce não traz consigo educação. Traz um vazio, um espaço em branco que terá depois de ser preenchido. É como se fosse um caderno que a gente compra e que, ao longo do tempo, vai sendo preenchido.Com a criança passa-se quase o mesmo. De um lado temos o educador e do outro o educando. Enquanto naquele exemplo o comprador é um sujeito activo e o caderno é simples objecto, aqui a situação é bastante diferente.
No processo de preenchimento do espaço vazio, tanto a criança (com “páginas” vazias e ilimitadas por serem preenchidas) como o adulto aparecem como personagens activos.
É na interacção entre a criança (educando) e o adulto (educador) que se processa a educação.
Os valores e as atitudes socialmente aceites ou não guiarão o preenchimento do espaço vazio da criança, que lhe permitirá encarar o mundo de forma consciente ou não. Nesse processo entram diferentes actores, dependendo daquilo que se pretende transmitir à criança de modo intencional ou não intencional. Na escola ou fora dela. Em conformidade com as leis vigentes no país ou situando-se à sua margem, nascendo daí o tipo de educação a dar à criança: informal, não formal e formal.
A primeira forma de educação com que se depara a criança é a informal, seguindo-se depois (ordem flexível) a educação não formal e a formal (que é o nosso grande objectivo). Integram, elas, um todo que é educação. As três formas de educação são defendidas por académicos, investigadores de merecido respeito, como também por certas e importantes organizações internacionais.
Este tipo de classificação de educação surge como que uma síntese de tantas outras que existem, como educação infantil, física, sanitária, familiar. Apesar disso, a divisão da educação suscitou desde os tempos recuados (anos 60 e 70) até aos nossos dias debates ou discussões na busca da sua afirmação disciplinar.
A literatura consultada dá-nos a indicação de haver vários critérios para compreender quando é que estamos em presença de um tipo ou não. Entre eles temos, por exemplo: intenção ou não, escola, família, televisão, rádio, Internet, inclusão ou não no sistema de educação regulado.
A outra indicação é de que “o formal é o que define, em cada país e em cada momento, as leis e outras disposições administrativas; o não formal é o que está à margem da organização do sistema educativo graduado e hierarquizado”. Seguindo este critério, é lícito dizer-se que a educação não formal surge pela primeira vez, em Angola, a 17 de Dezembro de 1490, altura em que uma missão composta por “mestres de artes e ofícios, e letrados para ensinarem a ler e escrever”, acabaria de sair de Lisboa para Angola.
Em termos de artes e ofícios, a intenção era a formação de carpinteiros, pintores, pedreiros e tecelões nos moldes africanistas. E em termos da escrita, destaca-se o Colégio dos Jesuítas, que chegou a preparar academicamente vários nativos pretos, mestiços e brancos, surgindo daí a chamada elite evoluída (formada por quadros administrativos e técnicos), que veio servir de ponte entre os chamados autóctones e os colonizadores.
Para sermos mais claros, o surgimento da educação formal em Angola ocorre com o decreto de 14 de Agosto de 1845, quando o executivo colonial toma a educação como sua tarefa directa. Surgiram regras visando a organização do primeiro ensino elementar primário, dando prioridade à criança, de acordo com as prioridades e intenções da colonização.
Deliberou-se a criação da instrução pública, principalmente a primária e a Escola Principal, e os locais onde as mesmas tinham de funcionar. No ensino elementar primário podia aprender-se a ler, escrever e contar, princípios gerais de moral, doutrina cristã, exercícios gramaticais, princípios de geografia, História Portuguesa e História Sagrada do Antigo e Novo Testamento.
Finalmente, do balanço feito, 24 anos depois do início da organização da educação formal em Angola, constatou-se, a título ilustrativo, do elevado número de disciplinas que eram leccionadas, ignorância do factor cultura, resultando daí elevadas taxas de reprovação das crianças.
O insucesso escolar deveu-se também à falta de professores e mesmo os disponíveis chegaram a revelar insuficiências, pois muitos deles mal sabiam ler e escrever e fazer operações.
Para se tentar ultrapassar tais dificuldades, que afectavam a educação formal, cuidou-se da qualidade dos professores, bem como do aumento dos seus ordenados, reformulação do currículo que se adaptasse à realidade de Angola.
É nesse quadro que a Escola Principal fica estabelecida em 1868, ficando encarregada de ensinar, obrigatoriamente, a gramática da língua portuguesa, entre outras disciplinas.
*Doutorando e mestre em Estudos Africanos
A criança pode ser definida como sendo “pessoa jovem, com pouca experiência de vida”. Diz-se que a criança quando nasce não traz consigo educação. Traz um vazio, um espaço em branco que terá depois de ser preenchido. É como se fosse um caderno que a gente compra e que, ao longo do tempo, vai sendo preenchido.Com a criança passa-se quase o mesmo. De um lado temos o educador e do outro o educando. Enquanto naquele exemplo o comprador é um sujeito activo e o caderno é simples objecto, aqui a situação é bastante diferente. No processo de preenchimento do espaço vazio, tanto a criança (com “páginas” vazias e ilimitadas por serem preenchidas) como o adulto aparecem como personagens activos.
É na interacção entre a criança (educando) e o adulto (educador) que se processa a educação.
Os valores e as atitudes socialmente aceites ou não guiarão o preenchimento do espaço vazio da criança, que lhe permitirá encarar o mundo de forma consciente ou não. Nesse processo entram diferentes actores, dependendo daquilo que se pretende transmitir à criança de modo intencional ou não intencional. Na escola ou fora dela. Em conformidade com as leis vigentes no país ou situando-se à sua margem, nascendo daí o tipo de educação a dar à criança: informal, não formal e formal.
A primeira forma de educação com que se depara a criança é a informal, seguindo-se depois (ordem flexível) a educação não formal e a formal (que é o nosso grande objectivo). Integram, elas, um todo que é educação. As três formas de educação são defendidas por académicos, investigadores de merecido respeito, como também por certas e importantes organizações internacionais.
Este tipo de classificação de educação surge como que uma síntese de tantas outras que existem, como educação infantil, física, sanitária, familiar. Apesar disso, a divisão da educação suscitou desde os tempos recuados (anos 60 e 70) até aos nossos dias debates ou discussões na busca da sua afirmação disciplinar.
A literatura consultada dá-nos a indicação de haver vários critérios para compreender quando é que estamos em presença de um tipo ou não. Entre eles temos, por exemplo: intenção ou não, escola, família, televisão, rádio, Internet, inclusão ou não no sistema de educação regulado.
A outra indicação é de que “o formal é o que define, em cada país e em cada momento, as leis e outras disposições administrativas; o não formal é o que está à margem da organização do sistema educativo graduado e hierarquizado”. Seguindo este critério, é lícito dizer-se que a educação não formal surge pela primeira vez, em Angola, a 17 de Dezembro de 1490, altura em que uma missão composta por “mestres de artes e ofícios, e letrados para ensinarem a ler e escrever”, acabaria de sair de Lisboa para Angola.
Em termos de artes e ofícios, a intenção era a formação de carpinteiros, pintores, pedreiros e tecelões nos moldes africanistas. E em termos da escrita, destaca-se o Colégio dos Jesuítas, que chegou a preparar academicamente vários nativos pretos, mestiços e brancos, surgindo daí a chamada elite evoluída (formada por quadros administrativos e técnicos), que veio servir de ponte entre os chamados autóctones e os colonizadores.
Para sermos mais claros, o surgimento da educação formal em Angola ocorre com o decreto de 14 de Agosto de 1845, quando o executivo colonial toma a educação como sua tarefa directa. Surgiram regras visando a organização do primeiro ensino elementar primário, dando prioridade à criança, de acordo com as prioridades e intenções da colonização.
Deliberou-se a criação da instrução pública, principalmente a primária e a Escola Principal, e os locais onde as mesmas tinham de funcionar. No ensino elementar primário podia aprender-se a ler, escrever e contar, princípios gerais de moral, doutrina cristã, exercícios gramaticais, princípios de geografia, História Portuguesa e História Sagrada do Antigo e Novo Testamento.
Finalmente, do balanço feito, 24 anos depois do início da organização da educação formal em Angola, constatou-se, a título ilustrativo, do elevado número de disciplinas que eram leccionadas, ignorância do factor cultura, resultando daí elevadas taxas de reprovação das crianças.
O insucesso escolar deveu-se também à falta de professores e mesmo os disponíveis chegaram a revelar insuficiências, pois muitos deles mal sabiam ler e escrever e fazer operações.
Para se tentar ultrapassar tais dificuldades, que afectavam a educação formal, cuidou-se da qualidade dos professores, bem como do aumento dos seus ordenados, reformulação do currículo que se adaptasse à realidade de Angola.
É nesse quadro que a Escola Principal fica estabelecida em 1868, ficando encarregada de ensinar, obrigatoriamente, a gramática da língua portuguesa, entre outras disciplinas.
*Doutorando e mestre em Estudos Africanos

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