quinta-feira, 1 de setembro de 2011

"As famílias precisam de educação financeira"

Elsa Barber directora do INADEC
Fotografia: Jornal de Angola
A problemática do endividamento das famílias em Angola é uma questão ligada à falta de cultura financeira e de poupança. A afirmação é da directora do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (INADEC), Elsa Bárber, para quem o défice de conhecimentos pode ser resolvido com um programa de  educação económica e financeira entre as famílias angolanas.

Jornal de Angola (JA) - O que se entende por endividamento familiar?
Elsa Bárber (EB) – Traduz-se exactamente no conjunto de dívidas assumidas pelas famílias, resultantes da mudança de hábitos de consumo, em consequência das campanhas publicitárias apelativas aos produtos financeiros postos à disposição pelos bancos comerciais.
   
JA – Como aceder ao crédito com responsabilidade, evitando que mais tarde alguém chegue ao endividamento?


EB – Não queremos dizer que o recurso ao crédito seja um acto negativo. Os créditos são, muitas vezes, grandes auxiliadores das finanças familiares. Mas devemos aceder aos créditos com responsabilidade, conhecendo pormenorizadamente as suas vantagens e desvantagens.

JA – Em Angola existem muitos casos de endividamento familiar?
EB – As estatísticas sobre esses casos não chegam à direcção do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor, porque nunca as solicitamos. Mas, a julgar pelo factor bancário, isto é, falando apenas dos consumidores que são utentes de contas bancárias, que é um número pouco significativo em proporção ao número de angolanos, creio que existem muitos casos de endividamento familiar no país.

JA – A publicidade dos bancos comerciais não tem sido um forte chamariz para que os cidadãos recorram cada vez ao crédito para a solução dos seus problemas financeiros?
EB – Estas práticas são resultantes do próprio desenvolvimento económico do país, como o aumento de instituições financeiras bancárias, fornecedoras de crédito, que desenvolvem uma publicidade “agressiva”, a concorrência no mercado nacional e o próprio aumento do consumo nas famílias angolanas. Tudo isso contribui para a adesão ao crédito por parte das famílias.

JA – Será que a banca avalia o risco dos clientes quando coloca um novo produto no mercado?
EB – O facto é que os consumidores acedem muitas vezes a produtos acima do seu rendimento familiar, não analisando os eventuais riscos.

JA – Quais são os créditos mais solicitados pelas famílias angolanas?
EB – Os créditos para a compra de automóveis e de moradias devem ser os mais solicitados. Mas, como disse, não temos em nossa posse a estatística desses produtos.

JA – A educação financeira dos consumidores não deveria ser um instrumento eficaz na prevenção da insolvência das famílias?
EB – Exactamente. Um amplo programa de alfabetização financeira seria o ideal. O INADEC tem um programa que conta com a colaboração da revista Exame, na pessoa do doutor Carlos Rosado, a fim de levarmos o conhecimento sobre esta matéria às escolas do I, II e III ciclos e do ensino médio.

JA – Em que consiste este programa?

EB – Consiste na disseminação dos contratos de adesão e conceitos de poupança, ou seja, gestão das próprias mesadas. Consiste no conceito de percentagem e arredondamentos. Já realizámos, ao longo do ano, alguns seminários sobre educação financeira.

JA – Para evitar o endividamento dos seus clientes, que medidas os bancos deveriam tomar para avaliar melhor o risco de crédito colocado à disposição do público?
EB – Os consumidores devem recorrer a produtos financeiros que não coloquem em risco o seu orçamento familiar e fazerem adesões ao crédito com responsabilidade. Muitos consumidores aderem ao crédito sem ler os contratos de adesão. Muitas vezes, o funcionário bancário também não está suficientemente habilitado para dar uma informação fiável ao consumidor.

JA – É necessário apostar mais na educação financeira das pessoas?
EB – É necessário apostar na formação e informação financeira dos consumidores, para que estejam mais atentos quando recorrerem ao crédito bancário que deve ser colocado com maior transparência no mercado. Alguns países criaram o Gabinete de Orientação ao Endividamento dos Consumidores, para suprir esta falta de informação. A subida das taxas de juro pode provocar diminuição do consumo privado e o agravamento das prestações, tendo em conta que grande parte do rendimento das famílias é absorvido pelo pagamento da prestação da dívida.

JA – Concorda que as instituições bancárias sejam também responsáveis pelo endividamento das famílias, sobretudo quando não cumprem cabalmente o seu dever de prestar a informação de forma clara e transparente, de modo a que os consumidores possam decidir de forma racional na altura de solicitarem crédito?
EB – A responsabilidade é de ambos. A garantia de uma informação transparente cabe ao banco. E cabe ao consumidor avaliar os riscos antes de arranjar compromissos que causem instabilidade financeira à sua família. Os direitos do consumidor estão consagrados na Constituição e, entre eles, constatamos a protecção dos interesses económicos. O INADEC, acautelando o endividamento das famílias angolanas, está a proteger o interesse económico do consumidor.

JA – Quais são as maiores reclamações feitas pelas famílias?

EB – Temos muitas reclamações em relação aos condomínios. Há pessoas que reclamam por verem as suas expectativas frustradas. Fazem a projecção de um valor para a compra de uma casa e, na altura da entrega, o prazo não é cumprido. Há incumprimento até em relação à vedação do condomínio ou à conclusão das obras e ao não abastecimento regular da energia e água.



Nenhum comentário:

Postar um comentário